Por décadas, o Parque Nacional Serra da Capivara, localizado no município de São Raimundo Nonato, a 530 km de Teresina, no Piauí, foi sinônimo de um mistério arqueológico que virou patrimônio mundial. Por trás dessa transformação, esteve a força e a obstinação de uma mulher que dedicou a vida à ciência e à preservação cultural: Niède Guidon. A arqueóloga brasileira faleceu em junho de 2025, aos 92 anos, deixando um legado que ultrapassa fronteiras geográficas e acadêmicas.
Filha de pai francês e mãe brasileira, Niède nasceu em Jaú, no interior de São Paulo. Cresceu rodeada de livros e foi incentivada pela família a valorizar o conhecimento. Seu caminho a levou ao curso de História Natural na Universidade de São Paulo (USP), onde mais tarde se especializou em Arqueologia. Mas sua carreira, longe de ser previsível, foi marcada por reviravoltas que moldariam sua missão no mundo.
Início de uma trajetória singular
Após concluir a graduação em História Natural, em 1959, começou a lecionar Ciências Naturais em uma escola pública do interior paulista. Foi ali que enfrentou um episódio decisivo em sua trajetória: ao lado de duas colegas recém-formadas, recusou-se a participar de uma missa organizada pela escola. Em uma comunidade conservadora e profundamente religiosa, o gesto foi interpretado como um sinal de comunismo — o que, em pleno contexto da Guerra Fria, era quase um crime moral. O caso ganhou repercussão, e as três foram rapidamente transferidas.
O que parecia um obstáculo se transformou em oportunidade. De volta à capital, Niède foi encaminhada ao Museu Paulista da USP. Ali, teve seu primeiro contato com a arqueologia, um encontro que mudaria o rumo de sua vida. Fascinada pela possibilidade de investigar o passado mais remoto do Brasil, mergulhou de vez na área.
Niède se especializou em Arqueologia Pré-histórica com ênfase em arte rupestre na Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, onde também obteve seu doutorado em Pré-história, em 1975. E foi justamente por meio de um projeto franco-brasileiro que ela desembarcou no Piauí, nos anos 1970, para estudar um acervo de pinturas rupestres até então pouco conhecido. A partir dali, nunca mais saiu de cena.
“Ela transpirava segurança e firmeza”, lembra Arivan Lima, guia regional e secretário de turismo de Coronel José Dias, cidade que abriga 70% da área visitável do Parque Nacional Serra da Capivara. Arivan é um dos muitos profissionais que tiveram sua trajetória de vida diretamente impactada por Niède. Aluno dela em 2001, ele recorda como a arqueóloga fazia questão de transformar o turismo local numa ferramenta de desenvolvimento social. “O plano de manejo do parque indicava que toda a mão de obra fosse local. Minha turma era de nativos, filhos de ex-caçadores e de famílias desapropriadas para a criação do parque”.
O impacto transformador das ações de Niède segue vivo até hoje. Para Marian Rodrigues, chefe do Parque Nacional da Serra da Capivara e idealizadora do Centro de Memória dos Povos da Serra da Capivara, a influência da arqueóloga está em cada detalhe. “O legado de Niède Guidon está na base de tudo: na proteção rigorosa, na valorização da ciência e no cuidado com o território e suas comunidades”.
Dica de podcast
Os caminhos de Niède Guidon
Um novo capítulo na história do povoamento das Américas
O trabalho de Niède na Serra da Capivara não ficou restrito à conservação do patrimônio. Ela foi responsável por abalar uma das teorias mais consolidadas da arqueologia mundial: a de que os primeiros humanos teriam chegado às Américas há cerca de 13 mil anos, pelo Estreito de Bering, um canal estreito, de aproximadamente 82 km de largura e 30–50 m de profundidade, que separa a Rússia (Sibéria) do Alasca e conecta os oceanos Pacífico e Ártico.
Na última Era do Gelo, níveis marinhos extremamente baixos expuseram o leito marinho, formando a “ponte terrestre” conhecida como Beringia, pela qual estima-se que grupos humanos tenham migrado da Ásia para as Américas. Nas escavações no Piauí, os vestígios encontrados indicavam presença humana muito anterior: possivelmente há mais de 50 mil anos.
Boa parte dessas evidências surgiu no sítio Boqueirão da Pedra Furada, onde foram identificadas camadas com restos de fogueiras datados entre 32 e 50 mil anos, bem como ferramentas de pedra lascada, o que sugere que o local foi ocupado muito antes do que se acreditava. Em 1986, essas descobertas foram publicadas na revista Nature, colocando a ciência brasileira no centro de um debate global. Posteriormente, outras camadas indicaram ocupação de até 60 mil anos.
De acordo com relatórios da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), além das fogueiras, foram encontradas pinturas rupestres com aproximadamente 35 mil anos, além de ossadas humanas de até 15 mil anos, tudo isso em mais de 1.300 sítios arqueológicos catalogados. Essas evidências combinadas levaram Niède a propor uma hipótese revolucionária: a de que os primeiros humanos teriam chegado às Américas por rotas diferentes da tradicional via Bering, talvez até por travessias marítimas vindas da África. Em entrevista à Revista Pesquisa Fapesp, Guidon afirmou: “A discussão sobre a exclusiva passagem por Bering me parece totalmente superada".
Do campo de pesquisa à transformação social
Se o mundo acadêmico discutia suas teorias, na Serra da Capivara, a transformação era visível. Em 1979, por força da pressão de Niède junto ao governo federal, foi criado o Parque Nacional Serra da Capivara, hoje Patrimônio Mundial da Unesco. Além disso, ela fundou a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM), entidade responsável por gerir e divulgar as pesquisas na região.
Para os moradores locais, o legado de Niède tem uma dimensão concreta e cotidiana. “Ela trouxe educação de qualidade, qualificação profissional, dignidade através do turismo, levando o pé da Serra da Capivara para o conhecimento do planeta através da ciência”, afirma Arivan.
Marian destaca que essa valorização da comunidade foi parte essencial da visão de Niède. “Ela abriu caminho para que a comunidade assumisse o protagonismo. Seguimos essa trilha investindo em educação, capacitação e geração de renda no território. O Instituto Olho D’Água é a continuidade viva dessa visão”, ressalta.
Ao longo dos anos, a arqueóloga criou projetos de capacitação, combate à pobreza e inclusão social. “Ela queria que estudássemos muito, pois receberíamos todo tipo de turistas, desde o leigo até o PhD, e tínhamos que ter fluência verbal com a metodologia de trabalho com todos”, conta o guia.
A cientista de hábitos simples
Quem conviveu com ela guarda lembranças que vão além da ciência. “Era sistemática, metódica, prática, todavia extremamente humana e simples”, resume Arivan. Ele lembra com carinho de um episódio que marcou sua relação com a arqueóloga: “Estava com um casal de historiadores cariocas num sítio arqueológico. Eles queriam vê-la a todo custo, mas ela já estava reclusa por conta da idade. De repente, ela chegou sozinha no sítio, perguntando pelos arqueólogos... Eles choraram de emoção ao encontrar com ela”.
No dia a dia com a equipe, a postura de Niède era marcada pela firmeza e reconhecimento mútuo. “Era exigente, mas justa. Tinha profundo respeito por quem cuidava do território e sabia o valor do trabalho de cada um”, pontua Marian.
Após sua morte, o Parque Nacional da Serra da Capivara divulgou uma nota que ecoa o sentimento de toda uma comunidade: “Com coragem, paixão e compromisso com a ciência, fundou a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM) e lutou por décadas para proteger e divulgar a riqueza arqueológica do Brasil. Sua trajetória deixa um legado imensurável para a ciência, a cultura e a memória do nosso país. Seu nome está eternamente gravado na história”.
E, hoje, a missão de Niède se perpetua e o Parque Nacional Serra da Capivara segue como um dos destinos mais fascinantes e transformadores para viajantes de todo o mundo.
Como planejar sua visita à Serra da Capivara
Explorar o legado de Niède de perto é uma experiência que vai além do turismo convencional. Para chegar ao parque, a cidade base mais indicada é São Raimundo Nonato, no interior do Piauí. Uma boa opção é viajar até Teresina, capital do estado, com a Guanabara, que conecta diversas cidades do Nordeste e outras regiões do país à capital piauiense. De Teresina, é possível seguir viagem até São Raimundo Nonato em ônibus de transporte regional, com saídas regulares e trajeto que dura em média de 8 a 10 horas. As passagens para Teresina podem ser adquiridas pelo site da empresa ou em pontos de venda físicos.
A melhor época para visitar a Serra da Capivara é durante a estação seca, entre maio e setembro. Nesse período, as temperaturas são um pouco mais amenas e o risco de chuvas é menor, o que facilita as caminhadas pelas trilhas e o acesso aos sítios arqueológicos.
Como o parque tem grande extensão e os deslocamentos exigem planejamento, é recomendável contratar um guia credenciado. Além de obrigatório em muitos circuitos, o acompanhamento de um profissional local enriquece a experiência, com informações detalhadas sobre a arqueologia, a fauna, a flora e as histórias por trás das pinturas rupestres.
Ficou com curiosidade? Acesse o Passeio Virtual na Serra da Capivara
https://geoportal.sgb.gov.br/360serradacapivara/
Para quem se aventura pelas trilhas, a dica é usar roupas leves, mas que ofereçam proteção contra o sol, além de chapéu, protetor solar, calçado adequado e bastante água. Os principais circuitos – como o Baixão da Pedra Furada, o Boqueirão da Pedra Furada e o Circuito do Sitio do Meio – impressionam pela concentração de pinturas pré-históricas e formações geológicas.
Antes ou depois das visitas ao parque, vale conhecer o Museu do Homem Americano, mantido pela FUMDHAM, e o Museu da Natureza, inaugurado em 2018, que oferece uma leitura interativa sobre a evolução da vida na região.
Ao caminhar entre cânions e paredões de arenito, diante de registros que atravessam milênios, o visitante entende na prática o tamanho do legado de Niède Guidon, essa mulher que mudou a história das Américas a partir do coração do Piauí.
