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Tesouro Local

De pai para filho

Em Exu, terra de Luiz Gonzaga, no Cariri, mestres de cultura popular recebem turistas e visitantes em museus oficinas.
Por Ana Alice Guedes | Fotos: Vitória Cordeiro e Mestre Tonho dos Couros
Tempo de leitura: 2 minutos e 30 segundos
O som da máquina de costura ecoava pela casa quando os olhos de Antônio Pereira da Silva, ainda menino, observavam o pai, José Pedro da Silva, construindo peças em couro no sertão pernambucano. Foi vendo o pai trabalhar que Antônio percebeu que aquela também era sua vocação. 

O ofício lhe fez ser reconhecido pela Prefeitura de Exu, no Cariri pernambucano, como Mestre da Cultura Tradicional Popular Exuense e, na boca do povo da cidade, ele é o ‘Mestre Tonho dos Couros’. 

A cerca de 600 quilômetros de Recife e 76 de Juazeiro do Norte, a cidade é lembrada por ser a terra do “rei do baião”, Luiz Gonzaga. Símbolo da cultura nordestina, o artista também difundiu a indumentária em couro país afora, antes vista apenas nos vaqueiros do Nordeste brasileiro.

Quando Gonzagão está sem as vestes de couro, ninguém reconhece”, observa o Mestre, sobre a influência permanente do cantor.


Luiz Gonzaga era cliente assíduo do pai de Antônio, José Pedro. Mesmo com poucas lembranças do músico, o artesão guarda com zelo um presente dado por ele: uma máquina de costura.

“O pai fazia os chapéus de couro dele com uma máquina que não era adequada e acabava amassando. Um dia, ele [Luiz Gonzaga] perguntou se havia como resolver aquilo, e o pai respondeu que sim, que tinha uma máquina de costura adequada. No dia seguinte, Gonzagão apareceu com a máquina lá em casa.”
 
Máquina de costura doada por Luiz Gonzaga
Máquina de costura doada por Luiz Gonzaga


Até hoje, o Mestre guarda o instrumento como um tesouro. Dos nove filhos, ele foi o único a seguir o trabalho do pai. “Ele faleceu em 2002, e quando ele deixou aquela máquina para mim, ave Maria, foi a melhor herança que ele poderia ter me dado”, lembra.

O artesão relembra os primeiros passos e fala da emoção de quando teve o primeiro trabalho aprovado pelo pai. “A gente recebeu uma encomenda de uma dúzia de chapéus. Meu pai não conseguiu terminar tudo, aí eu fui e disse ‘eu fiz um ali’. Ele olhou, pensou e aprovou.”

Atualmente, o Mestre produz gibão, bolsa, sandália e, claro, os chapéus – que ganham destaque na sua produção, principalmente quando contam com a estrela, símbolo característico do rei do baião.

Desde 2022, com a iniciativa Residencial Ciclo do Couro, o espaço de trabalho de Antônio foi convertido num Museu Oficina pela Prefeitura de Exu, que recebe visitantes e turistas gratuitamente, gerando renda e visibilidade para seu trabalho e para a cidade.

“As pessoas vêm aqui visitar a gente e isso incentiva muito. Sempre que tem um pedido pela internet, somos avisados. As redes sociais vêm ajudando muito também”, avalia.


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​Políticas de reconhecimento


Alguns estados e municípios brasileiros contam com políticas públicas de reconhecimento e apoio para mestres e mestras da cultura popular, como é o caso da cidade de Exu, que diplomou Antônio em abril de 2024. 

Junto a ele, outros nove talentos foram reconhecidos, como os mestres Zé Venceslau e Chico Aprígio – seus companheiros no Residencial, que também dão nome a museus oficinas no espaço, localizado no Sítio Chapada dos Gomes.

 
Mestre Tonho dos Couros, Mestre Chico Aprígio e Mestre Zé Venceslau
Da esquerda para direita, Mestre Tonho dos Couros, Mestre Chico Aprígio e Mestre Zé Venceslau

O estado pioneiro na criação de políticas para mestres e mestras foi o Ceará, com a Lei dos Tesouros Vivos da Cultura Cearense em 2003 e, hoje, já reconhece mais de 80 mestres, concedendo apoio financeiro e institucional para a preservação e valorização dos saberes e fazeres culturais populares. Em Pernambuco, que também conta com política similar desde 2005, já são pelo menos 60 mestres e mestras já contemplados.

A nível federal, um Projeto de Lei que também visa valorizar os mestres e mestras da cultura popular está em tramitação há 13 anos na Câmara dos Deputados

Como Mestre da Cultura, a maior preocupação de Antônio é perpetuar a arte em couro para a juventude – seu sonho é criar uma escolinha para ensinar os jovens. “Uma cultura tão linda como essa precisa ter continuidade.”
 
Mestre Tonho dos Couros
Mestre Tonho dos Couros 
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