Preloader
Vidas na Estrada

Quando a paixão por ônibus vira comunidade e memória

Busólogos compartilham nas redes e nas estradas a paixão por ônibus, transformando um hobby em comunidade e cultura viva.
Por Lianne Ceará
Tempo de leitura: 3 minutos
 
wellington-codore
Wellington Cadore, criador da página "Ônibus, Minha Segunda Casa", uma das maiores referências da América Latina sobre o tema.
 

Na contramão da pressa dos aplicativos e da lógica utilitária do transporte, existe uma comunidade que enxerga os ônibus com afeto, curiosidade e encantamento. São os busólogos — entusiastas que colecionam informações, fotografam, catalogam e compartilham tudo que envolve o universo rodoviário: modelos, rotas, carrocerias e histórias.

No Ceará, a página Mob Ceará é um dos principais pontos de encontro dessa comunidade nas redes. Com mais de 26 mil seguidores no Instagram, o perfil divulga registros técnicos e afetivos de ônibus urbanos e rodoviários, conectando um público que cresce a cada ano.

Mas o sentimento também ocupa o espaço físico. Um dos momentos mais aguardados pelos busólogos é o Encontro da Guanabara, promovido anualmente pela Expresso Guanabara em Fortaleza. Já são 14 edições que reúnem admiradores de todo o país para visitar a garagem da empresa, fotografar modelos e trocar experiências com quem compartilha a mesma paixão.

Para Wellington Cadore, criador da página "Ônibus, Minha Segunda Casa", com mais de 500 mil seguidores no Facebook e 208 mil no Instagram (@onibusmsc), participar desses eventos é sempre especial. “É sempre uma experiência incrível. Para nós busólogos e fãs da marca, esses eventos reforçam o vínculo com a empresa, e também se tornam uma oportunidade de rever amigos busólogos através desses encontros”, relata.

 
Quando eu entro num ônibus, eu me acho
“Se eu pudesse, eu não largava, mas eu tenho que voltar pra casa.”
Na última edição, uma das 130 pessoas presentes era Vaniberg Barros, motorista de ônibus e busóloga assumida, radicada no Rio Grande do Norte. Aos 36 anos, Vaniberg traz o amor pelos ônibus no sangue – filha de cobrador e sobrinha de motoristas, ela hoje vive nas estradas com a mesma emoção da infância. “As pessoas ainda se impressionam quando veem uma mulher dirigindo ônibus. Mas acabou esse tempo de dizer que mulher não pode”, afirma.

Mais do que hobby, a busologia é memória em movimento. Há quem colecione miniaturas, quem registre viagens e quem, como Vaniberg, viva de fato ao volante. Para quem é busólogo, ônibus não são apenas veículos: são marcos afetivos, narrativas em movimento e, muitas vezes, um jeito de ver o mundo.

“Não é só gostar de ônibus, não é só viajar, não é só dirigir. São as pessoas, as culturas diferentes. Me transformo em outra coisa quando entro num caminhão ou ônibus. Quando eu entro num ônibus ou caminhão, eu me acho”, completa a motorista.
De desenhos na infância à maior página sobre ônibus da América Latina
A trajetória de Wellington também começou cedo. “Desde criança eu sou apaixonado por ônibus. Na escola eu terminava a lição o mais rápido possível para desenhar ônibus. Meus brinquedos favoritos eram os ônibus, e até ‘fabricava’ os meus próprios veículos, com caixinha de sabonete e de creme dental”, relembra. O interesse cresceu junto com ele e se consolidou nas redes sociais, onde encontrou um público igualmente apaixonado.

A página "Ônibus, Minha Segunda Casa" surgiu do desejo de mostrar o olhar único de Wellington sobre o tema. “Sempre busquei agregar informações nas fotos que eu publicava. Um ônibus contém tantas histórias, não dava pra simplesmente publicar, tinha que ter algo a mais”, conta. “Quando passei a fazer vídeos também, isso me aproximou ainda mais dos seguidores, que passaram a ter uma figura real falando sobre o que eles gostavam. As fotos, os vídeos e as informações se complementam”.



Hoje, sua página é uma das maiores referências da América Latina sobre o tema. “Já visitei praticamente todos os estados do Brasil, conheci países vizinhos como Argentina, Uruguai, Paraguai e Peru, todos de ônibus”.

Mesmo com o crescimento da comunidade, Wellington lembra que no início nem todo mundo compreendia essa paixão. “No início muitos estranhavam esse meu sentimento de gostar de ônibus, não entendiam e questionavam, mas ignorei e hoje administro uma das páginas que é referência no assunto. E temos muito mais a crescer, a busologia é um mundo que mais pessoas precisam conhecer e apreciar”.



Leia mais


Ler próxima matéria